FF118 – Descarte de Resíduos Eletrônicos

Ademir Brescansin é gerente executivo da Green Eletron, entidade criada para gerenciar os sistemas de logística reversa de produtos eletroeletrônicos e pilhas portáteis em âmbito nacional. Sua meta é disseminar cada vez mais informação e contribuir para que haja a integração nas ações de política industrial do setor eletroeletrônico, além de promover a economia circular, objetivando a geração de valor e a redução de custos. Brescanin é formado em engenharia mecânica e mestre em Sustentabilidade e Gestão Ambiental, atua há mais de 30 anos no setor de produtos eletroeletrônicos, com foco nas áreas de sustentabilidade, engenharia do produto e sistemas de gestão integrada. Em 2021, a Green Eletron realizou a pesquisa Resíduos Eletrônicos no Brasil, que trouxe respostas importantes sobre o tema. Para saber mais, a FIC FRIO entrevistou Brescansin Os principais trechos desta conversa, vem a seguir.
FF: De acordo com a pesquisa “Resíduos Eletrônicos no Brasil” — 2021, conduzida pela Radar Pesquisas a pedido da Green Eletron, os brasileiros ainda não sabem o que é resíduo eletrônico e  nem como descartá-lo. Pode nos explicar sobre estas duas questões? AB: E-lixo, resíduos de equipamento eletroeletrônico (REEE) ou lixo eletrônico. Todos estes termos se referem à mesma coisa: produtos elétricos e eletrônicos quebrados, danificados ou sem utilidade, por algum motivo; além de pilhas descarregadas – que devem ser descartados corretamente. Acontece que na maioria das vezes estes produtos são descartados no lixo comum ou ficam esquecidos em alguma parte da casa, porém eles podem ser reciclados e transformados em outras matérias-primas em vez de serem, simplesmente, descartados em aterros sanitários. Também é importante informar que existem duas maneiras corretas para realizar o seu descarte: uma delas é a devolução ao fabricante, uma vez que muitas marcas mantêm pontos de recebimento destes aparelhos, com a garantia de que serão devidamente encaminhados para um sistema de logística reversa, conforme previsto na Política Nacional dos Resíduos Sólidos (Lei Nº 12.305), que determina que é de responsabilidade do fabricante destinar corretamente o montante de resíduos criado por seus produtos. Outro caminho a seguir é depositar em pontos de descarte instalados por gestoras da logística reversa de eletroeletrônicos, ou popularmente chamados de reciclagem do lixo eletrônico, que farão todo o trabalho de transporte, manejo e reciclagem dos resíduos. A Green Eletron é uma dessas gestoras, com mais de 730 Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) de eletroeletrônicos em 12 estados e no DF, além de outros mais de 7 mil pontos nacionais exclusivos para pilhas.
FF: Um dos reflexos da falta de conhecimento sobre o tema é que o Brasil ocupa o 5º lugar do ranking mundial e o primeiro da América Latina na produção desse tipo de material. Haja vista o tamanho do país, este é um dado preocupante. Em sua opinião, o que falta para mudar este cenário e, também, o comportamento da população em relação a este tema?  AB: Atualmente, a principal dificuldade é a conscientização por parte dos consumidores. Sem esta ponta não existe logística reversa. Existem desafios da estruturação do sistema, uma vez que ele está se iniciando do zero, com uma cadeia de fornecedores ainda não tão distribuída. No entanto, se as pessoas não entenderem sobre descarte de equipamentos que não possuem mais utilidade, a logística reversa não tem como acontecer, por melhor que seja toda a estrutura.
FF:  Ainda de acordo com a Pesquisa, mais de 90% dos respondentes acreditam que celulares, smartphones, tablets, notebooks, pilhas e baterias são lixo eletrônico. Como, então, estes objetos estão classificados? AB: Todos estes aparelhos, após sua vida útil, são classificados sim como lixo eletrônico. Porém, vale destacar que a porcentagem de mais de 90% foi atingida após a pesquisa apresentar aos entrevistados a definição correta sobre o que é lixo eletrônico. A pesquisa também indica que estes itens são os que as pessoas mais guardam em casa, apesar de saberem que podem ser reciclados.
FF: Além do ranking, o que mais a Pesquisa trouxe de importante? AB: A pesquisa também mostrou que a maioria da população (87%) já ouviu falar em lixo eletrônico, mas não está certa do que esse termo representa. E que existe uma dualidade entre o que é o lixo digital, também conhecido como spam,  e o físico, que são os resíduos eletrônicos. Outro ponto destacado é que a maioria dos respondentes (71%) concordam que não há muita informação na mídia sobre o lixo eletrônico e seu descarte correto. E que seria essencial divulgar mais informações sobre o tema para aumentar o nível de conscientização da população brasileira. Sobre as regiões brasileiras, a pesquisa mostrou que o Sul se destaca com maisfamiliaridade sobre o lixo eletrônico e maior descarte. O Centro-Oeste possui a menor familiaridade e menos descarte correto de lixo eletrônico. Nesta região os pontos de coleta estão mais distantes das residências, o que pode ser um dos motivos das baixas quantidades de descarte. Também é importante ressaltar que 87% da população guarda algum tipo de eletroeletrônico sem utilidade em casa por mais de dois meses e 25% da população nunca levou seus resíduos eletrônicos até um ponto de coleta, ou PEV (Ponto de Entrega Voluntária). A pesquisa apontou ainda, que, quanto mais próximos os PEVs estão do consumidor, maior será a frequência do descarte.
FF: Quais são os itens mais descartados? AB: Os itens mais descartados são pilhas e eletroeletrônicos de pequeno porte, que também são os que ficam guardados em gavetas por mais tempo. Eletroeletrônicos grandes (linha branca) e que ocupam mais espaço tendem a ficar menos de um mês nas residências, após exceder sua utilidade.
FF: O senhor mencionou a Logística Reversa (LR). Pode defini-la e explicar como ela funciona? AB: Logística reversa é o sistema que viabiliza o descarte, coleta, reciclagem e reaproveitamento adequados de bens de consumo sem mais utilidade. A ideia é que, em vez de serem descartados em locais impróprios, perdendo assim, a possibilidade de recuperação, os resíduos sejam destinados a um sistema de logística reversa e, consequentemente, reaproveitados, transformados em matéria-prima para outros produtos. Basicamente, a logística reversa é um sistema que permite que o consumidor deposite os materiais em pontos de entrega voluntária, tendo a certeza de que os mesmos serão destinados da forma ambientalmente correta. É a união dos esforços de quem compra e de quem produz. Existem dois tipos de logística reversa: a B2C e a B2B. A primeira, refere-se a Business to Consumer, numa tradução livre significa da empresa para o consumidor”,  Ou seja, o produto sai da indústria, é comprado por uma pessoa física – o consumidor e, após o fim de sua vida útil para o sucesso do ciclo,  precisa ser descartado corretamente, em pontos de entrega voluntária. O modelo B2B, por sua vez, é uma relação exclusiva entre empresas – “de empresa para empresa”, tanto no momento da compra dos ativos, quanto em seu descarte, chegando na posterior destinação. Ou seja, é uma negociação contratual entre as partes. Neste caso, a estrutura não passa pela intermediação do consumidor. Vale destacar que ambas as modalidades são essenciais no sucesso da economia circular.
FF: E de que forma ela contribui para reduzir os impactos ambientais ocasionados pelos resíduos eletrônicos? AB: Com a Logística Reversa, o modelo circular apresenta uma nova forma de obtenção de matéria-prima, através da extensão da vida útil dos produtos e posterior reaproveitamento dos mesmos. Ou seja, o que seria o fim da linha tradicional de produção – o descarte-, torna-se parte de um novo começo. Coleta e reciclagem entram em cena para transformar o material descartado em insumos, que reiniciam o ciclo, sendo devolvidos à indústria. As matérias-primas conseguidas dessa forma também representam um impacto negativo menor para o meio ambiente, seja em uso de água e terras ou emissões de gases causadores do efeito estufa, como metano e carbono.
 FF: Quais são os principais obstáculos que impedem a prática da Cadeia da LR no Brasil? AB: Nosso maior desafio é a conscientização sobre a importância da logística reversa de eletroeletrônicos, tanto por parte de empresas e dos governos quanto do lado dos consumidores. Quanto mais pessoas, físicas ou jurídicas, entenderem os benefícios sócio ambientais e econômicos desse novo modelo de consumo, mais recursos serão poupados.
FF: A Green Eletron, gestora de logística reversa foi fundada em 2016, pela Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica (Abinee). Atualmente é considerada uma das principais atuantes na causa. Como é a sua atuação e envolvimento na sociedade? AB: A Green Eletron é uma gestora sem fins econômicos ou lucrativos para a logística reversa de produtos eletroeletrônicos e pilhas. Viabiliza a coleta, destinação adequada, reciclagem do material e distribuição dos pontos de recebimento de lixo eletrônico, pilhas e baterias portáteis e, assim, atende à demanda crescente das empresas, governo e sociedade, pela criação de alternativas para a coleta e tratamento adequado desses produtos em seu fim de vida e cumprimento da Lei 12.305/2010 PNRS – Política Nacional de Resíduos Sólidos – e o Acordo Setorial para a Logística Reversa de Eletroeletrônicos e seus Acessórios. A Green Eletron oferece um sistema coletivo para gerenciar toda a logística reversa de suas associadas, o qual envolve desde a coleta até o envio de aparelhos eletroeletrônicos e pilhas para recicladoras homologadas pela gestora, responsáveis por transformar estes produtos em matéria-prima para a fabricação de novos produtos pela indústria. Em 2016 iniciamos com 11 empresas associadas, hoje são dezenas de fabricantes, importadoras e distribuidoras de produtos eletroeletrônicos e pilhas. Em 2021 contamos 70 associadas no Programa Descarte Green de Eletroeletrônicos e 27 no Programa Green Recicla Pilha. O sistema da Green Eletron também conta com parceiros que disponibilizam espaço para a instalação de coletores em locais de fácil acesso para a população, como: shoppings, lojas de eletrodomésticos e construção, parques públicos, farmácias, entre outros locais. Outro objetivo da organização é realizar campanhas de conscientização e educação ambiental e, por isso, fundou o Movimento Eletrônico Não é Lixo em 2020.
FF: O que é o Acordo Setorial para a Logística Reversa de Eletroeletrônicos? AB: Trata-se de um documento elaborado pelas entidades representativas do setor eletroeletrônico, interessadas no cumprimento da legislação sobre a reciclagem do lixo eletrônico, e o governo federal. Seu propósito é resolver desafios para a implementação deste sistema em âmbito nacional. Apesar da Logística Reversa já ser responsabilidade de todos os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, apenas algumas empresas possuem um sistema de logística reversa estruturado, que atenda de modo efetivo os consumidores, como as associadas da Green Eletron. Com o Acordo Setorial, serão estabelecidas metas e cronogramas específicos, além de definições fiscais, tributárias e ambientais, que viabilizam e dão segurança técnica e jurídica à operação. O Acordo prevê que, em cinco anos, seja realizada a coleta e destinação adequada de 17% do lixo eletrônico produzido no Brasil anualmente e a criação de cinco mil pontos de coletas em 400 municípios. Além disso, o documento define que as empresas devem apresentar um cronograma anual de implementação da logística reversa para os seus produtos, um plano de comunicação para conscientizar e engajar os consumidores, além da apresentação de relatórios anuais de acompanhamento. Outra coisa que fica definida é que as empresas podem implementar seus sistemas próprios de Logística Reversa ou de forma coletiva por meio de gestoras, como a Green Eletron. Ao optar pelo sistema coletivo, as companhias reduzem os custos da operação ao fazer o rateio com outras empresas do setor, assegurando assim a coleta e reciclagem dos eletroeletrônicos, pilhas e baterias.
FF: A Green Eletron possui dois Programas de Descartes. Um sobre eletrônicos e o outro sobre Pilhas. ComenteAB: Pilhas – A Green Eletron realiza a coleta, reciclagem e destinação correta de pilhas e baterias portáteis desde 2010. Quando foi criado, o programa chamava-se ABINEE Recebe Pilhas, mas em 2018, tornou-se parte do sistema da gestora. Atualmente o programa conta com mais de 7 mil pontos de coleta distribuídos nacionalmente. Eletrônicos – Desde o início das operações, em 2017, foram instalados mais de mil Pontos de Entrega Voluntária de eletroeletrônicos, ou PEVs. Com o programa de eletroeletrônicos, a gestora está presente no Distrito Federal e 13 estados: SP, RJ, BA,CE, ES, GO, MG, MS, PE, PR, RS, SC, e já coletou mais de 530 toneladas de produtos eletroeletrônicos.
 FF: “Eletrônico Não é Lixo” é uma outra ação criada pela Green Eletron. O que é este movimento? AB: O movimento Eletrônico Não é Lixo nasceu em 2020 e é uma campanha de conscientização da população sobre o descarte correto de eletroeletrônicos. As ações têm sido realizadas em diversas esferas, com campanhas de coleta no Metrô de São Paulo, movimentações nas redes sociais – com a participação, inclusive, de influenciadores de médio e grande portes – e um e-book didático sobre o assunto.
 FF: O setor de Refrigeração e Ar Condicionado produz quantidade considerável de lixo eletrônico. Pode nos dar algumas orientações sobre o descarte correto de geladeiras, freezers, condicionadores de ar, botijas de fluidos refrigerantes, entre outros equipamentos que estão entre os mais descartados neste segmento? AB: Para os produtos de grande porte, a Green Eletron ainda não possui pontos fixos de recebimento desses produtos, mas os recebe em campanhas realizadas com diversos municípios. Muito em breve será disponibilizado, no site da Green Eletron, um sistema para coleta em casa, de produtos de qualquer porte. É mais uma conveniência e facilidade para ajudar os consumidores a destinarem adequadamente seus produtos. Também para produtos de grande porte, sugerimos que o consumidor entre em contato com o fabricante para se informar sobre a melhor forma de realizar o descarte. (Vide box).
 FF: Como as empresas e as pessoas podem colaborar no descarte correto do lixo eletrônico? AB: O descarte correto do lixo eletrônico e sua posterior reciclagem só é possível com a participação da população, que deve saber que eles devem ser descartados com responsabilidade. O descarte incorreto de aparelhos eletroeletrônicos, pilhas e baterias pode trazer impactos negativos para o planeta e o ser humano. Por outro lado, a reciclagem de celulares, fones, impressoras, cabos, pilhas, carregadores, entre outros, permite o resgate e reutilização do plástico, vidro, cobre, prata, ouro, e muitos outros, além de dar a destinação correta e segura para materiais que não podem ser recuperados. Por isso, o consumidor deve estar atento à maneira como descarta seus resíduos eletroeletrônicos, para que as taxas de reciclagem cresçam cada vez mais. As empresas, por sua vez, precisam estar em conformidade com a legislação e disponibilizar um sistema de logística reversa eficiente que permita que a população faça o descarte correto dos seus produtos eletroeletrônicos e de pilhas após o fim do seu ciclo de vida.
FF: Gostaria que o senhor comentasse sobre um possível cenário do Lixo Eletrônico no Brasil num futuro próximo, daqui a cinco anos, por exemplo, tanto do lado positivo, havendo mais compreensão sobre o tema; quanto do modo contrário: sem que haja entendimento e empenho sobre a causa. AB: No cenário positivo para daqui cinco anos, as empresas no Brasil conseguiram cumprir as metas estabelecidas pelo Acordo Setorial e estaremos coletando e reciclando 17 vezes a quantidade coletada em 2021, aumentando significativamente as taxas de reciclagem desses aparelhos. Também, teremos mais de 5 mil pontos fixos de coleta de eletroeletrônicos e aumentaremos exponencialmente o número de campanhas no país todo, tornando o descarte correto em um ato mais simples e cotidiano. Com isso, vamos reduzir a exploração de matérias-primas como ferro, aço, lítio, cobre, prata e outros. Como efeito, vamos ver as nossas emissões de carbono diminuindo, o prolongamento da vida útil de aterros sanitários, a proteção do meio ambiente e a criação de empregos no setor. Essa é a visão ideal para o futuro. Porém, se não avançarmos o nível de conscientização ao redor do tema, vamos continuar acumulando mais resíduos eletrônicos nas casas, aterros e no meio ambiente, efetivamente jogando fora materiais essenciais para a nossa economia e que são finitos no meio ambiente. Por exemplo, todos os materiais presentes nos produtos eletroeletrônicos quando reciclados voltam a ser uma matéria-prima para a fabricação de um novo produto. Assim, evita-se a extração de recursos naturais para a fabricação desses mesmos produtos. Uma solução para isso é realmente entregarmos nossos produtos sem utilidade para a reciclagem e os reaproveitamentos dos materiais, contribuindo com a sustentabilidade do planeta.
BOX: Descarte Correto para os Equipamentos do Frio – No setor de Refrigeração, a responsabilidade ambiental não se limita ao recolhimento e à correta destinação dos fluidos refrigerantes a cada manutenção realizada. O descarte de refrigeradores e compressores, por exemplo, também requer atenção especial para evitar danos ao meio ambiente, que podem perdurar anos a fio após o término de suas vidas úteis. Esses problemas ocorrem em virtude da liberação de substâncias como metais pesados e gases prejudiciais às plantas, animais e aos seres humanos, é claro. No caso dos refrigeradores, existem mais de 600 componentes, sendo que 95% deles são passíveis de reciclagem, podendo retornar à indústria como insumos. Os poucos inutilizáveis devem ser encaminhados à destinação final de resíduos, conforme prevê a NBR 15833. Além disso, grandes varejistas de eletrodomésticos aceitam equipamentos em bom estado como parte do pagamento na compra de um novo aparelho. Já os compressores, embora possuam menos elementos, apresentam um aspecto a mais a ser observado: o perigo provocado pelo vazamento de óleo durante o transporte. O problema pode ser resolvido com a lacração dos passadores tanto pelos refrigeristas quanto por empresas especializadas. Outra ameaça constante é o escape para a atmosfera de fluidos refrigerantes, o que pode perfeitamente ser evitado com o recolhimento, feito sempre por um especialista e com o ferramental correto, antes que todo o conjunto seja encaminhado para descarte. Por Cristiane Di Rienzo.

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